Anúncios

parte da alma urge por avançar, conquistar, desbravar novos lugares e pessoas. te desafia com o desconhecido. a todo tempo ser movido pela adrenalina do inesperado. nenhuma certeza se você pode ir além ou não, mas uma estranha confiança de que tentar é a única maneira de descobrir se o muro é muito alto ou inquebrável. 

do lado de lá, a vida igualmente avança. as conquistas de lá parecem familiares, mas a alma reconhece que lá tudo muda também. é um outro tipo de novo, outros mesmos lugares, outras mesmas pessoas e tantas novas pessoinhas chegando. não, mesmo lá nada é igual. o inesperado chega de outra forma, mais intimista talvez. talvez lá estejam os muros que você já desistiu de ultrapassar.  o desafio do velho é diferente do novo. 

minha alma é atraída por ambos diariamente. uma cor para cada lado, uma cor para cada desejo, um coração para dois caminhos. 

saudades de lá. saudades de cá. uma benção isso de poder sentir.

Saio do carro tonta… horas de viagem… parada do alemão, Petrópolis.

Eu de short, camiseta e descabelada.

Uma família dentro de um carro se prepara para sair. Uma senhora aparentemente muito fina me enxerga:

– Meu Deus! Olha a perna daquela menina. 

Eu queria não ter visto,  nem entendido…mas ví… e como naquela hora eu estava meio que de saco cheio olhei bem para a perua… olhei profundamente para a perua e sua família dentro daquele  carro de perua.

…  e no alto dos meus 8 anos mostrei a língua para ela.

E me deliciei com meu revoltado e inocente ato. 😀

Acredito que somos frutos do nosso meio. Quero dizer com isso que somos mais parecidos como nossa família do que gostaríamos de admitir.

Minha família é marcada por líderes. 

Meu avô foi Coronel, minha avó diretora de uma escola grande. Líderar está na veia da família, bem como escrever, cozinhar, amar, brigar e se reconciliar. (bom, acho que esta parte está em várias famílias).

Não é permitido a um líder fraquejar, duvidar ou cair… a um líder só cabe um destino – desbravar! e a suas palavras de ordem são SEGURANÇA e CORAGEM.

Assim faço a minha leitura da criação que minha família me deu e de como ela influência a forma com que eu lido com o vitiligo.

Minha família nunca me deixou fraquejar diante o vitiligo. Nenhum sinal de cena, toda tentativa de vitimização era rapidamente censurada. Não. Nessa família SEGUIMOS sem tremer. Temos coragem de expor o que pensamos, de lutar pelo que acreditamos e de sermos exatamente o que somos. 

Ao longo dos anos isso foi sendo passado para mim…sutilmente. (talvez nem tão sutilmente assim).

Hoje entendo como isso é enraizado em mim. Nas minhas atitudes. 

Claro que me atropelo. Claro que o tempo vai te mostrando que falar o que vc pensa aciona imediatamente uma lei básica da física… a da ação e reação. Quando vc fala o que você quer, vai ouvir o que não quer. 

Mas o risco vale. Acredito que vale.

Em relação ao vitiligo esses pilares – segurança e coragem – serviram para eu construir minha auto-estima, minha tranquilidade em ser quem eu sou, como eu sou.

Não tem nada de autoritário ou presunsoço nisso… apenas uma confiança de que você não deve sucumbir, deve seguir o seu caminho e ser o que vc se propõe a ser.

Lá em casa não mentimos que não sentimos medo. Nós sentimos. E testamos diariamente nossa coragem em seguir – tranquilos e felizes.

Acabei de chegar da praia e o vitiligo está mais destacado do que nunca. Hoje vesti saia curta e fui trabalhar.  Mais um medo ficou para trás.

Foi num verão, há 25 anos atrás que apareceu a primeira mancha de vitiligo. Eu até gostaria de dizer que me lembro bem, mas não lembro.

Tinha 3 anos de idade e hoje não tenho nenhuma lembrança de como era a vida sem vitiligo. Aos 3 anos de idade acho que não fazia muita diferença…

A primeira, de acordo com meus pais, foi no pescoço, quase que na parte de trás do pescoço. Estávamos na praia, onde passávamos todo verão.

No final de janeiro meus pais notaram esta mancha e acho que uma outra que surgiu em seguida. Ao voltarmos para BH me levaram em um médico que me receitou uma pomada para perebinhas infantis, típicas do verão e pediu aos meus pais que me levassem para uma nova consulta logo após o carnaval. Voltamos para a praia: eu, algumas manchas e uma pomada.

No final de janeiro o vitiligo – ainda não diagnosticado – tinha se espalhado em várias partes do meu corpo. Nem de longe era uma simples perebinha de verão.

O tipo de vitiligo que tenho é bem particular. Se espalhou de forma rápida por todo o corpo. Mais tarde eles o classificariam como Vitiligo Universal. Naquele instante, só tinha um nome: PÂNICO.

Foi assim que minha família reagiu ao saber que a filhinha deles, a caçulinha fofa (pq cara, eu era um xuxuzinho de bebê) tinha essa coisa ainda desconhecida, estranha e sem-tratamento. Minha família chorou.

O verão de 1983 foi um ano triste na minha família.

Em todas as minhas fotos eu estou rindo.

Como é doce ser criança.

estamos aqui para compartilhar, aprender e seguir.

mas sem perder a postura e a certeza de que o mundo é dos justos e que a verdade sempre vem a tona. inevitavelmente vem a tona.

cuide dos seus atos, pq o que passa na mente fértil das outras pessoas e o que sai da boca vazia delas vai voar pelo vento… e o que você é de verdade sempre prevalecerá.

você não aceita as ofensas que ouve.

talvez não aceite o fato de você ter vitiligo. de ter acontecido com você. das pessoas olharem, falarem, e agredirem.

você não aceita a vergonha que sente, o medo, a incerteza.

aceitar é renunciar a sua opinião e separar o que outro diz/pensa/reage do que você é.

você certamente é imperfeito. também olha para alguém que está fora do que você é acostumado a ver. uma mancha, uma deficiência, um traço qualquer que te desvia a atenção enquanto você anda na rua para ver aquela outra pessoa que é simplesmente incomum.

o incomum também te atrai, e te causa repulsa, ou medo, ou a mais ingênua curiosidade. é fácil aceitar que o incomum que seus olhos captam é umsentimento puro já que ele veio de vc.

você certamente comenta sobre a vida e as escolhas de fulano, ciclano e beltrano e, claro, tem várias opniões sobre os que aparecem em sua frente. se alguém comenta do seu casamento é feio, mas vc já falou do casamento de quantas pessoas?

é fácil acreditar que nós somos vítimas. que nós não somos preconceituosos. que nós não falamos de ninguém. e que nós só gostaríamos de ser aceitos com a mesma indiferença com que aceitamos os outros.

a verdade é que pedimos sem estarmos dispostos a dar. me diz com honestidade: VOCÊ ACEITE O PRÓXIMO EXATAMENTE COMO ELE?

torto, cheiroso, mentiroso, bonito, mesquinho, amoroso, sensível, picareta, manchado, bandido, infiel, falso, sincero, metido, alto, gordo, fútil?

e por aceitar não entenda ter que conviver. pq existe uma diferença imensa. você não precisa conviver com uma amiga falsa, depois que você descobriu que ela é falsa, mas você é capaz de aceitá-la assim, exatamente como ela é?

pois é… eu também não… ainda trago uma série de opiniões sobre todos, passamos uma vida fumando opiniões sobre as pessoas… de repente me sinto com o pulmão preto… uma fumante de 28 anos… e que a cada nova tragada dispara uma série de tosses e pigarros e caras-feias.

parei de fumar. e como todo vício, a tarefa não é fácil, mas seu puder evitar este cancer, eu vou.

o que isso tem a ver com o vitiligo, muito…

enquanto eu não estiver apta a aceitar as pessoas a minha volta exatamente como elas são, com todos os seus defeitos e malícias e imperfeições eu não posso chorar pelo vitiligo. não posso exigir compreensão, nem reclamar preconceito.

não importa se são boas ou ruins. se estão corretas ou agem de forma absurda. se são lobos ou cordeiros ou ambos.

veja bem, não tenho pretensão de ser madre teresa, nem budha… mas quero exercitar minha capacidade de aceitação. de aceitar o outro e sua opnião, de me aceitar a aceitar a minha opinião.

diz a bíblia que amar quem te ama é fácil. difícil é amar o inimigo.

você aceita quem você ama? pq eu acho que difícil mesmo é amar, esse amor incondicional.

você é capaz de amar aquele que te ofende? que te discrimina por suas manchas, suas falhas?

é hora de parar de se queixar de como as pessoas se comportam e aceitar que tanto elas quanto eu estamos aqui para evoluir, e que todo dia é um novo dia.

aceite a sua realidade e o fato de que você pode fazer com ela o que você bem entender.

sempre achei que uma das grandes questões do vitiligo era a falta de reconhecimento. de vc se reconhecer a um grupo, de vc se enxergar e se reconhecer no universo a sua volta.

sim, os espiritos se atraem por afinidade. e dá um vazio ser diferente sozinho. se o ser humano quisesse ser único, sozinho e diferente não criava tantas maneiras de se identificar, não seria tão sociável e tão carente como é… e possivelmente nao compraria tanto.

mesmo os grupos descolados, tidos fora-do-padrão. mesmo os que se preparam diariamente para serem diferentes. mesmo os que vestem qualquer coisa oposta ao que o mundo está usando, pq querem ser diferente…. até este cara tem ao lado um diferente como ele. um diferente exatamente como ele com quem ele divide a maravilhosa experiencia de ser diferente de todos.

e mais… eu penso que o gosto das coisas depende de como elas foram parar na nossa boca… me explico…quando a escolha é nossa, quando ser diferente é uma opção sabemos os riscos, compramos os obstáculos… quando não é uma escolha, é uma situação, é uma imposição aí ser diferente é mais complicado e menos revolucionário do que os idealistas de plantão possam dizer.

nós andamos em grupo. faz parte da necessidade da gente de se firmar, de se formar, de sobreviver.

mas aí é que está a maravilha de ser humano… reconhecer-se a um grupo vai além de manifestações físicas e estéticas. reconhecer-se em um grupo só é bom mesmo quando o que você se assemelha vai além da roupa que você usa ou da gíria que você fala…. bom mesmo, é reconhecer nos outros a sua volta os seus valores, seu caráter, seu respeito pelos outros e por você.

eu – que sou diferente, fisicamente diferente – ainda que sinta falta de outros iguais a mim, ainda que quisesse encontrar e me misturar entre iguais, me importo mesmo em reconhecer os meus valores e princípios.

procuro me reconhecer naquilo que realmente forma e define o ser-humano e que só é identificado pelo olhar…. o caráter.

vamos nos reconhecer diferentes. vamos nos reconhecer únicos, vamos nos reconhecer especiais.

mas nunca, em tempo algum, procure se encontrar em pessoas sem caráter, sem valores, sem princípios.

pq isso lhe trará a maior solidão que se possa imaginar… e eu te garanto, não será lá que você irá se encontrar.

o vitiligo se caracteriza pela falta de pigmentação em determinadas áreas do corpo.
normalmente em extremidades, ao redor dos olhos e da boca, e em áreas que deixariam muitos tímidos de dizer ou ter. :0)

é como se a fábrica de melanócitos do corpo parasse a produção de melanina daquela região… basicamente, alguns departamentos sindicalistas do meu corpo entraram em greve. desistiram.

nós desistimos. é uma realidade na vida do homem. é uma das formas de sobrevivência.

desisitir é um momento de fraqueza enquanto renunciar pode ser de imensa coragem. como distinguir? como saber se meu corpo está desistindo de mim ou renunciando a uma causa perdida e desgastante?

quando é que o meu corpo desistiu de colorir? quando meu corpo renunciou a minha cor? a tarefa diária dele de me colorir? e se ele desistiu de me dar cores, devo eu desistir também? renunciar?

mas é possível desistir pela metade? ou a fábrica não ter parado por completo significa que ainda há luta?

sempre penso sobre este instante. assim com a paixão – que acredito ser piamente um escolha que acontece por um milésimo de segundo, mas acontece – quando é hora de aceitar que tudo acabou, que nada vai mudar a não ser que você mude o que deseja ou espera, e então, finalmente desistir.

tenho pensado sobre as renúncias da minha vida. sobre aqueles que desistiram de mim, sobre aqueles que eu estou desisitindo.

deixar para trás é uma das grandes lições da vida. encerrar ciclos, histórias, sentimentos é quando você desiste do que passou e abre finalmente caminho para o que vem pela frente. novas escolhas sempre virão pela frente.

meu corpo ainda não se decidiu em relação ao vitiligo e eu acompanho de perto, mas distraidamente, seus momentos de abstenção e de retomada. assim, sem muita expectativa, mesmo pq, o meu corpo pode não ter desistido do vitiligo ainda, mas eu, euzinha, já desisti de sofrer há muiiito tempo.

ainda não tenho uma fórmula mágica, um relógio encantado que toca, que desperta estrategicamente no momento exato que deveríamos pular do barco e remar para outras direções.

ainda não sei qual vai ser a próxima peripécia do meu corpo, ou daqueles com quem eu convivo. não sei dizer se eu vou desisitir de alguém, ou se alguém vai desistir de mim…

…a única certeza que tenho é que aconteça o que acontecer, eu não vou desistir de mim.

há poucos dias celebramos o dia da consciência negra. há poucas semanas celebramos o primeiro presidente americano negro.

a história dos negros é um belo exemplo de busca pela igualdade. Não sou a favor de cotas, nem do feriado, mas respeito o caminho percorrido pelos negros. foi realmente um árduo caminho, como o dos judeus, e outros açoitados pela barbárie humana.

sempre que vejo negros, gays, minorias lutando por direitos específicos penso que a luta deveria ser pela liberdade , mais do que pela igualdade.

liberdade para sermos distintos, diferentes, únicos, específicos. liberdade para termos direitos e deveres únicos para seres-humanos difetentes.

deveríamos ser livres, mentalmente livres a ponto de não nos importarmos se na tv tem 5 ou 500 atores negros, amarelos, gordos ou magros. deveríamos ter a mente livre, e essa deveria ser nossa maior luta.

deveríamos celebrar não a batalha dos negros, gays, mulheres… deveríamos celebrar o avançar da sociedade, da mentalidade da sociedade que vai aos poucos ouvindo vozes guerreiras de liberdade.

deveríamos celebrar e provocar e convocar passeatas unificadas, feriados que de fato mobilizassem pessoas e ensinassem crianças a olhar os outros com amor, livres de conceitos quadrados.

deixemos de lado o rancor das dores passadas e vamos nos concentrar em ensinar nossas crianças novos caminhos. vamos largar nossas correntes e preservar a história dentro do papel que ela teve. nossos antepassados corajosamente abriram o caminho, mas agora podemos deixar os facões para trás e podemos caminhar com mais leveza.

não é mais hora de derramar sangue, nem chorar as dores do passado. é hora de olhar para frente, de construir a nova revolução que vai além de cores, sexualidade e posições sociais…. vamos nos armar de amor, de compreensão, de perdão.

enquanto não perdoarmos o que nossos antepassados fizeram e sofreram não estaremos prontos para o dia que mereceria ser feriado mundial, o dia da liberdade. a liberdade de ser humano, com todas as imperfeições que isto implica.

vemos agora o presidente negro, e espero que este seja um marco que daqui para frente não faça mais diferença. pq enquanto dermos importância para a diferença, maior ficará o abismo entre a igualdade e liberdade. e entre a igualdade e a liberdade, eu voto na liberdade.

eu, aqui, no meu pedacinho do mundo, luto para ser livre dos preconceitos, dos padrões e das etiquetas.

não sou minoria. sou única e o mundo inteiro me faz companhia.